
Vocês sabem quando um pensamento leva a outro, mesmo sem aparentemente terem uma relação direta entre si, e este leva a um outro, às vezes simultaneamente, e este ainda mais dissociado do primeiro? Pois isto aconteceu comigo pensando neste caso do Renan “CANALHEIROS”. Um caso de mais um deboche com o povo brasileiro, dando continuidade a um sistema de manutenção do poder e privilégio dos poderosos, que vem desde o Brasil Colônia.
A absolvição do dito cujo, em primeiro lugar, despertou-me “ânsia de vômito” (com o perdão dos mais sensíveis pela expressão grosseira) assim como, tenho certeza, em todos os cidadãos dignos do país - reação que temos que tentar controlar, senão faltarão anti-heméticos (remédios para evitá-los) no mercado, dado a freqüente repetição de casos semelhantes. A reação seguinte foi, mais uma vez, o desejo, o sonho, de viver num país, num mundo, melhores, com igualdade social, respeito ao próximo e ao meio ambiente, como descritos na música “O Progresso”, do Roberto Carlos, que citei por ter vindo automaticamente à mente.
Sei que corro o risco de me tornar cansativo por minhas associações com músicas, até o momento apenas dele. Posso parecer limitado e admito minhas limitações por não ser um leitor de grandes autores, de filósofos (apesar de sempre ter sido o “CDF” padrão até a época da faculdade de Biologia, tenho esta falha na minha formação), mas penso que se uma mensagem pode nos fazer refletir, porque desprezá-la? Assim, outra música dele que fala de um “sonho sonhado” se seguiu à anterior e tem a ver com este desejo de um mundo melhor, se a interpretarmos mais cuidadosamente.
A música à qual me refiro se chama “O Quintal do Vizinho”, de 1975. Nela, Roberto canta: “...Sonhei que entrei no quintal do vizinho e plantei uma flor. No dia seguinte ele estava sorrindo, dizendo que a primavera chegou...” . Diante da realidade do mundo atual, até em sonhos isso é perigoso. Podemos acordar do sonho espetados no arame farpado, furados com cacos de vidro, eletrocutados, baleados pelo vizinho, ao ver sua propriedade invadida, ou presos, diante das várias formas que as pessoas tem buscado para se proteger da violência. Talvez em cidades do interior até ainda poderia se imaginar situação semelhante, mas deve ser cada vez mais difícil, pois nem essas conseguem ficar livres dela uma vez que, se a mais marcante, que recebe os maiores destaques nos noticiários é a dos grandes centros urbanos, a inata do ser humano está presente onde quer que ele esteja.
Assim, a cada dia que passa, nos fechamos mais dentro de nossas casas e, o que é pior, dentro de nós mesmos. Vamos criando mecanismos para nos proteger de um perigo subjetivo que o próximo pode representar, de danos que pode nos causar. E assim, o ser humano vai se isolando cada vez mais, aumentando o medo de se relacionar, se tornando mais solitário, mais egoísta. Qualquer relação fica mais difícil, pois se relacionar significa dar e receber. Por um lado não deixamos o outro mostrar o que tem a oferecer e, no nosso egoísmo, nos recusamos a nos dar, a nos entregar, seja a uma amizade ou a um amor. O que podemos esperar, então, de um mundo em que o ser humano tenta ser cada vez mais auto-suficiente por este medo e por este egoísmo? Como vamos descobrir se o “vizinho” quer entrar no nosso “quintal” para “invadir nossa casa e nos roubar” ou se ele quer “plantar uma flor”? E, se num risco extremo para nossa segurança, o deixarmos entrar nele e plantá-la, como ela vai se desenvolver e dar origem a outras se deixamos nosso solo se tornar árido pela falta de cuidados com ele? O mundo não seria bem melhor se não nos protegêssemos tanto, aceitando os riscos que são inerentes à condição de estarmos vivos e, nos arriscando mais, termos mais chances de sermos felizes?
E então? Que tal deixarmos nossos “vizinhos” entrarem em nosso “quintal” e plantarem suas sementes e vermos novas “flores” nascerem neles? Afinal, vocês conhecem alguma estação mais bonita que a primavera?
Ah! Só mais uma perguntinha. Vocês têm cuidado do seu “solo”?
Abraços de alguém que, mesmo dentro da sua timidez, vive se arriscando e se machucando, por ainda tentar acreditar que um dia todos os riscos e todas as dores valerão a pena.
Reginaldo Ribeiro











